Laerte Patrocínio Orpinelli - O Maníaco da Bicicleta




Dez crianças, esse foi o que acreditamos ser no mínimo o total de vítimas de Laerte Patrocínio Orpinelli, também conhecido como o andarilho da morte. Foi acusado de espancar, estuprar e estrangular diversas crianças - seis meninas e quatro meninos - com idades que variam de 3 a 11 anos. Eram visíveis o sinal de crueldade nos cadáveres de suas vítimas, Orpinelli esmurrava a cabeça das crianças, principalmente a boca e as têmporas, alguns chegaram a ficar com o rosto deformado devido tamanha violência dos socos aplicados.

A população Rio Claro ainda se recuperava de uma série de assassinatos, cujo autor, Francisco de Marco, também conhecido como Chico Vidraceiro, foi acusado de matar 4 crianças no início da década de 90. A medida que mais crianças desapareciam e tinham suas ossadas encontradas alguns meses depois, era atribuído, pelos moradores da cidade, a autoria dos assassinatos à Chico Vidraceiro. Mas como isso seria possível se ele já havia sido preso, e se encontrava detido? Novas vítimas foram surgindo nos anos de 1996 e 1997, a cidade havia ficado em alerta, aumentou os cuidados com o objetivo de proteger as crianças.

"Eu iludia as crianças. Ia com jeito. Falava e oferecia bala. Nunca contei quantas foram"
Laerte Patrocínio Orpinelli
Revista VEJA n° 1634 – 02/2/2000

Um homem que pesava mais de 100 quilos, sujo e maltrapilho. Tinha uma fala mansa e simpatia para com adultos e crianças que atenuava seu aspecto descuidado. Aqueles que o conheciam, nem imaginavam o que se escondia por trás daquele visual rústico. Por 8 reais engraxava os trilhos das portas corrediças de bares no interior de São Paulo.

A imagem de um homem sofredor, gerava comoção nos moradores da cidade de Rio Claro e nas demais por onde passava. Sensibilizados com a sua aparente fragilidade decidiam ajuda-lo. Após prisão e confissão dos seus crimes, passou a ser odiado, sua frieza gerava revolta por parte dos famílias das vítimas e da população em geral. De homem frágil à monstro, quem poderia imaginar que um engraxador de portas de estabelecimentos comerciais, alcoólatra, com aparência inofensiva, poderia ser um assassino tão sádico?

A partir de anotações encontradas em um caderno, feitas pelo próprio Orpinelli, no qual tinha o dia e a cidade por onde passava, a polícia utilizou as informações ali presentes para determinar uma ligação compatível dos momentos dos crimes com o autor das anotações, elaborando um banco de dados que registra a rota macabra. De 1995 até ser preso, ele visitou 26 cidades, que registram o sumiço de 120 crianças de até 12 anos.

 

 Infância - amarrado ao pé da mesa

 Laerte nasceu na cidade de Araras, interior de São Paulo, cidade não muito longe das outras onde ocorrera os crimes.

Seu comportamento agressivo começou cedo. Ele era agressivo com todos, familiares à vizinhos, ninguém escapava. Enquanto cursava o terceiro ano primário, seu estranho comportamento chamou a atenção de uma professora. Era uma criança calada, estava frequentemente brincando sozinho e seu rendimento escolar era péssimo. Não conseguia passar de ano e abandonou os estudos ainda na terceira série do ensino fundamental. "A escola era muito chata, todo dia era a mesma coisa” disse Orpinelli.

Estava sempre tentando chamar a atenção da família, batia latas no quintal o que irritava a mãe, Eliza que cuidava de oito filhos. Na tentativa de repreendê-lo, ela dava sura nele com o que estivesse na mão e chegava a amarrá-lo na cama ou ao pé da mesa.

Aos 14 anos começou a sumir de casa por vários dias. Em 1993, Laerte não foi ao enterro da mãe, pois os irmãos não sabiam onde encontrá-lo.

Orpinelli era viciado em álcool, começou a beber cedo, ainda na adolescência. Aos 16 anos, iniciou uma série de internações – a primeira em 1967, na clínica psiquiátrica Antônio Luiz Sayão em Araras. Assim seguiria idas e vindas durante 26 anos até Receber alta em 1993. Seus problemas eram potencializados pela desunião familiar, três de quatro irmãos se aposentaram por alcoolismo.

"Comecei a matar crianças três anos depois de sair da clínica."
Laerte Patrocínio Orpinelli
Revista Época n° 88 – 24/1/2000

 

Crimes cautelosos

Orpinelli era cauteloso, enquanto trabalhava passando graxa nos trilhos das porta de ferro, observava atentamente a movimentação na cidade e procurava vítimas que costumavam brincar longe dos pais ou responsáveis. Ele utilizava do artificio da persuasão, se fazia amigo dos pais da possível vítima para convencê-la a segui-lo, caso essa não aceitasse ele ainda oferecia doces de um forma gentil e prometia mais guloseimas que se encontrava em sua casa guardados. Laerte então, dava carona a vítima em sua bicicleta vermelha e os guiava a morte certa, em lugares fechados e longe de testemunhas, de bosques à abrigos abandonados, mas sempre longe de locais com grande fluxo de pessoas. Pedia para que elas fizessem sexo oral nele, quando se recusavam, ele as espancam até a morte. "Fico nervoso quando não consigo fazer sexo. Aí, bato e esmurro" disse Orpinelli à polícia. Sempre com doces e guloseimas para atrair e conquistar a confiança de crianças, Orpinelli planejava tudo com antecedência. "Nunca tinha saído nada errado" disse o maníaco. Andava sempre com doces.

O perfil de suas vítimas era composto por crianças de ambos os sexos, classe média baixa e de faixa etária de 3 a 11 anos. As cidades por onde o maníaco passava eram próximas umas das outras. Seus ataques se concentravam em cinco cidades do norte de São Paulo.

Com a criança sob domínio de Orpinelli, não havia mais esperança, apenas gritos e pânico por parte da vítima. "Quem não se comportava eu matava no soco, mas se a criança obedecia eu só estrangulava" disse Orpinelli. Sua raiva o possuía, sem nenhuma empatia ele atacava a vítima desferindo golpes brutais, estuprava e torturava. Após muito sofrimento, as matava por meio de agressões físicas ou estrangulamento, também utilizava diversos objetos que estivessem próximos como por exemplo pedras. Os corpos de suas vítimas, normalmente, foram encontrados expostos ou parcialmente enterrados.

Quando foi preso Orpinelli afirmou ter bebido sangue de algumas vítimas já mortas e afirmou ser influenciado por um espirito maligno que o fazia a todo custo perseguir e matar crianças. Ao mesmo tempo, ele era inconsistente com as afirmações, atribuía também os delitos ao seu alcoolismo. Falava que ficava fora de si quando bebia. “Quando bebo incorporo o Satã, fico nervoso e sinto esse desejo. Sinto prazer em vê-las aterrorizadas.” Disse Orpinelli em entrevista à revista IstoÉ.

 

Algumas de suas vítimas:

Osmarina Pereira Barbosa e José Fernando de Oliveira,
10 e 9 anos, respectivamente

Ambos foram mortos no mesmo dia, os dois primos foram abordados por Orpinelli no dia 17 de Janeiro de 1990 em Rio Claro no Bairro de Santa Maria. Eles foram levados para um canavial, chegando lá, Orpinelli estuprou e espancou Osmarina até a morte. Em seguida, espancou José Fernando até a morte. As ossadas das duas crianças foram encontradas em setembro do mesmo ano. Em interrogatório, Orpinelli afirmou que José Fernando demorou mais a morrer do que a prima.

Aline Cristina dos Santos Siqueira,
9 anos

A terceira criança a desaparecer, Aline foi vista pela última vez no dia 28 de Agosto de 1996, segundo relatos, foi vista ao lado de um indivíduo montado em uma bicicleta.
Orpinelli confessou autoria do crime, havia sequestrado e matado a menina, está nunca teve seu cadáver encontrado. "Aline chorou. Conversei com ela, mas não adiantou" disse em depoimento à polícia.

Edson Silva de Carvalho,
11 anos


Primeira vítima de Orpinelli fora da cidade de Rio Claro, teve seu corpo encontrado em uma casa abandonada já em um avançado estado de decomposição. Edson havia desaparecido da cidade de Monte Alto em 26 de Maio de 1998. Orpinelli tentou abusar sexualmente do garoto, que desesperado gritou, em fúria, Orpinelli bateu a cabeça da criança contra a parede, causando morte instantânea.

“Quando o menino começou a gritar, eu bati com a cabeça dele na parede. Morreu na hora”

Crislaine Cristina dos Santos Barbosa,
3 anos

A vítima foi vista pela última vez em 25 de abril de 1999, em Pirassununga. Após encontrar a porta da casa da garota encostada e Crislaine sozinha na sala, ele entrou e a levou no colo. Orpinelli confessou que havia seguido a menina e a mãe dela, até a casa onde moravam. "Eu não estuprei ela. Eu só matei com murros na cabeça e no rosto e quebrei os dentes. Saiu sangue do nariz e da boca. Eu não quis passar a mão nela", contou ele à polícia.

Anderson Jonas da Silva,
6 anos

“No sábado ensolarado de 30 de novembro de 1997, o vendedor de cobertores Romilto da Silva, 34, decidiu dar uma paradinha rápida no bar próximo a sua casa, no bairro de Santana, em Rio Claro, 175 quilômetros de São Paulo, com o filho do meio, Anderson Jonas da Silva, 6 anos. Entre um gole e outro de cerveja, começou a conversar com um sujeito gordo, com barba mal feita, cabelos sujos e sem corte. Aquele senhor, mal tratado, com uma aparência de dar medo, passava graxa no trilho da porta do bar. Enquanto via seu pai conversando com o "tio" que trabalhava, Anderson brincava descontraidamente nos arredores do bar. "Tomamos até cerveja juntos, enquanto o menino comia uma porção de filé", lembra Romilto. Uma semana depois, no sábado 7 de dezembro, aquele senhor com graxa nas mãos se aproximou do menino, quando percebeu que o pai, Romilto, estava enchendo o tanque de seu carro, no posto localizado a 300 metros de distância da casa. "Quer uma balinha?", perguntou a Anderson, que aceitou de pronto. Afinal, o velho não era um desconhecido, pois já havia conversado com o pai dias antes. Em seguida, convidou o garoto para dar uma volta em sua bicicleta. Anderson nunca mais voltou para casa.”
Cesar Guerrero, Revista Isto é Gente, 2000

 

Investigação e Prisão

 “Sabia que um dia ou outro a polícia ia me pegar, mas não me preocupava”

A difícil tarefa de capturar o autor por trás das mortes das crianças parecia não ter fim, foi necessário muito tempo para conseguir identificá-lo. O número de crianças desaparecidas cresciam e a dúvida e incerteza atormentavam os investigadores. Após a polícia receber uma denúncia em Dezembro de 1998, Rio Claro, no qual duas garotas de menores foram agarradas por um indivíduo, este foi detido e logo após liberado abrindo-se apenas um boletim de ocorrência, o que despertou o interesse da delegada Sueli Isler, atuante em outro departamento.

Com base nas informações prestadas pelo suspeito no momento em que foi detido, Sueli foi até o local indicado como sua moradia. Surgia então um momento crucial à prisão de Orpinelli. Acesso a informações importantes, como os problemas psiquiátricos e o alcoolismo, serviram como um gatilho, um início a busca pelo Maníaco.

Apesar das pistas que já vinham seguindo, Sueli não tinha permissão para se dedicar ao caso, conseguiu esse feito em 1999. Um nome e retrato falado foram divulgados para outras delegacias regionais, o suspeito era Orpinelli, e finalmente a busca pelo culpado estavam preste a terminarem. Diversos meios de comunicação também haviam entrado na busca, foram divulgadas diversas informações sobre o assassino e Jornais e programas de rádios.

Orpinelli foi preso em um posto de gasolina, no município de Leme, após uma operação realizada pela Polícia Militar. Nos dias anteriores a sua prisão, ele encontrava-se na cidade de Itu, onde em 10 de Janeiro de 2000 havia procurado um lugar para passar a noite, escolhendo o Albergue Noturno de Itu, registrando sua estádia e ficando por lá durante 3 noites.

Orpinelli foi a júri em 2001 e em 2008 sendo condenado em penas cumuladas nas cidades onde ocorreram os crimes.

Imagens do Julgamento de Laerte Patrocínio Orpinelli

 

Morre o Maníaco da Bicicleta

Laerte Patrocínio Orpinelli estava preso na penitenciária de Iaras e com 60 anos já havia cumprido 13 de 100 anos de sua pena provenientes dos seus crimes no início da década de 90. Ele tinha sofria de diabetes e hipertensão. Em 31 de dezembro, o detento foi encaminhado ao Pronto-Socorro de Avaré (SP) para cuidar de uma ferida na pele. Ele foi liberado no mesmo dia e continuou o tratamento, com curativos, na enfermaria da penitenciária.

O comunicado sobre a morte de Laerte Patrocínio Orpinelli emitido pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) dizia:

"Informamos que Laerte Patrocínio Orpinelli deu entrada na Penitenciária de Iaras em 07 de dezembro de 2012 já apresentando diabetes (insulino dependente), hipertensão arterial e úlceras venosas infectadas em tornozelos. Ele foi imediatamente assistido pela equipe médica e de enfermagem, fazendo uso uso contínuo da medicação prescrita. Em 31 de dezembro do mesmo ano, Laerte foi encaminhado ao Pronto Socorro da cidade de Avaré para a realização de debridamento das ulcerações (procedimento médico de remoção do tecido desvitalizado presente em ferida). Retornou na mesma data e permaneceu no setor de Enfermaria para ser melhor assistido e continuar a ser medicado, bem como serem feitos os curativos necessários. No dia 3 de janeiro de 2013, por volta das 5h30 da manhã, ao fazer a contagem de praxe do referido setor, o servidor responsável não obteve resposta do sentenciado, que aparentemente não apresentava sinais vitais e que não havia solicitado atendimento. A direção da Penitenciária de Iaras aguarda o recebimento da cópia do laudo necroscópico para juntá-lo ao processo de Apuração Preliminar em curso. A Corregedoria Administrativa do Sistema Penitenciária está apurando as circunstâncias do fato. O Meritíssimo Juiz da Vara de Execuções Criminais responsável, assim como os familiares do reeducando, também foram informados do ocorrido"
Orpinelli foi enterrado ainda na manhã de 3 de janeiro, no Cemitério Municipal de Araras (SP), onde nasceu.

Era o fim para o “monstro de Rio Claro”, aquele homem maltrapilho, sujo, mas com fala cativante que conquistava crianças e adultos. Um assassino violento, sem nenhuma empatia, que se escondia por trás da sua aparência degradante. Apesar de ser diabético, andava sempre com doces, mas não era para si próprio e sim para suas vítimas. Isso fortaleceu a famosa frase utilizada por nossas mães e avós - “Não aceite doce de estranhos”. Gostaria de um “docinho”?

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